sábado, 25 de fevereiro de 2012

Preciosa vida

Hoje a tarde conheci uma senhora aqui em Cuiabá muito especial... Dona L. , uma senhora, de 48 anos que vive em uma área muito complicada aqui de Cuiabá. Esse local que visitei hoje não possuí saneamento básico, todo o encanamento que fornece a agua, como a energia é clandestino, apesar de que a comunidade já solicitou essa estrutura básica a prefeitura a mais de um ano, inclusive os órgãos responsáveis visitaram a região e se comprometeram a fazer a instalação da rede de energia elétrica, água e esgoto, isso já tem um ano e até agora nada. 

Enfim, conheci Dona L. enquanto andava pelas vielas e levantava alguns dados sobre a situação daquelas famílias. Essa senhora tem 13 filhos, o mais velho com 32 anos e o mais novinho 5 anos. O fato em si dela ter uma família numerosa não me espanta, eu acredito, eu gosto de famílias numerosas, mas infelizmente a situação dessa família é muito complicada. Hoje moram na casa dela 8 filhos, são os filhos menores de 20 anos. Todo dia essa senhora gasta 3 kg de arroz para alimentar a família. Alem de alimentar os 8 filhos, ela ainda fornece a "marmita" para o trabalho de 2 filhos adultos. 

Dona L, é casada, o marido esta hospitalizado a 6 meses, ele fez uma cirurgia complicada e esta para ter alta do hospital, porém os médicos já alertaram que ele não pode voltar para a casa em que a família vive atualmente, pois a estrutura não é adequada, o risco de infecção será imenso. 

Eu entrei na casa de Dona L, ela me convidou e eu aceitei, e a situação é realmente complicada. Do lado da casa dela passa um córrego muito poluído, avistei alguns ratos passando pelas margens. A região possui muitos animais abandonados, e a casa dessa senhora, assim como todas as outras casas é de madeira, muito aberta, úmida e ficam um pouco elevadas do chão, o que faz com que animais de rua se abriguem embaixo da casa, e isso faz com que pulgas subam para o piso da casa. Na casa percebemos isso muita umidade, mosquitos, pulgas e isso não tem absolutamente NADA a ver com o capricho e higiene de Dona L. com sua casa, a mesma faz limpezas periodicas, mas a estrutura não permite uma higienização correta, duradoura, na atual situação é impossível afastar os roedores e insetos. 

Um mes atrás na rua desta casa, foram localizados focos de larvas do mosquito da dengue, é um ambiente muito propício para o mosquito colocar seus ovos, e é um milagre que esse ano ainda não ocorreram casos de dengue ali, apesar dos mosquito estar presente. 

Dona L. uma vez por semana consegue juntar uma boa quantidade de farinha, ovos, sal, açucar e faz alguns pães batidos a mão, e é esse pão que alimenta a família a semana inteira. Hoje na visita provei um pedaço do pãozão de Dona L, com um cafezinho e é muito bom, ela tem uma mão muito boa na cozinha. Segundo Dona L. quando tem comida é arroz e feijão, quando sobra um dinheirinho que ela arranja fazendo alguma faxina extra, ela compra uma "mistura" e vai usando aos poucos. Os mantimentos de Dona L, acabaram na segunda feira, e o bolsa família vai vir só semana que vem, sem previsão de faxinas até semana que vem e o dinheirinho que o marido recebe só chega dia primeiro também.  Mesmo tendo tão pouco ela ainda me ofereceu seu pãozinho e café. Confesso aqui que eu não tomo café puro, só tomo café misturado com leite, mas o café de Dona L. foi feito com tanto carinho e ela estava tão feliz de receber visita que estava delicioso, acho que se ela me oferece-se um litro daquele café, eu tomaria o 1 litro sorrindo.  Os seus filhos pequenos são muito queridos, carinhosos, educados. Todos frequentam a escola, e para ir até a escola são 40 minutos de caminhada, as crianças conseguem na escola a doação do material básico para o estudo, além de ganharem lanche.

Quando entrei na casa, uma das pequenininhas veio correndo perguntar o que tinha na minha bolsa, dai eu mostrei o que eu tinha na bolsa, ela olhou, olhou e perguntou se eu tinha bala.. rsrs Infelizmente tive que dizer que a tia não tinha bala. Na saída fui com Dona L. em um determinado local e a pequenininha voltou pra casa com balinhas, inclusive ela no caminho estava doida pra voltar pra casa pra dividir as balinhas com os irmãos. Uns doces de crianças. 

A situação de Dona L. é muito complicada. A casa não tem banheiro, há uma "casinha" nos fundos onde fica um buraco com um apoio onde as pessoas vão ao banheiro, como quase todas as casas o esquema de "saneamento" é rustico, precário, informal. O cheiro é terrível, muito forte e muito perigoso para as crianças. Imaginando que cada casa tem um esquema parecido como esse, entendemos o odor muito forte da região. 

Depois de conversar com Dona L, de meus colegas se afastarem, nós oramos, as mãos calejadas, fortes e firmes  dessa senhora seguraram as minhas e conversamos com o Senhor, ela própria conduziu a oração, iniciando a mesma com um profundo agradecimento pela sua vida, pela vida do marido e dos filhos. Tenho certeza que segunda feira quando chegar no trabalho, lá terá mais uma reclamação a meu respeito, pois eu orei em uma visita de trabalho e me envolvi pessoalmente com aquela família,  mas eu não me importo.

To aqui pensando naquela família, que ainda não sei bem como posso ajudar de forma mais efetiva. Eu quero muito que aquelas crianças tenham acesso a atividades no horário que estão fora da escola, elas não podem continuar morando naquela situação, aquele pai vai sair do hospital e precisa ir para um lugar melhor, junto com a esposa e com os filhos, a comida deles vai acabar denovo daqui alguns dias. Que Deus nos ajude e mostre um caminho para melhorar as condições de vida dessa família. Eu ainda não sei por onde ir...

Orem por essa família, se alguém daqui quiser mais informações, tiver alguma sugestão, quiser ajudar, entra em contato comigo, a situação é muito dificil. Mas Dona L. tem o mais importante, ela conhece Nosso Salvador, ela crê e Ele esta ao lado daquela numerosa família. Nosso Senhor nasceu numa estrebaria, sem estrutura e seu berço foi uma manjedoura. Ele é por nós. 

Agradeça ao Senhor por sua vida. Agradeça pelo seu pãozinho e café de todo dia. E olhe para o lado, ajude seu irmão. Podemos nos ajudar mutuamente, como irmãos. Podemos sim. Podemos ter pouco, mas sempre podemos dividir, sempre podemos compartilhar. Ajude seu irmão. Ajude aquele que você nem considera seu irmão. 

Não podemos ser indiferente a situações tão tristes, nem que tenhamos que sentir na carne a dor, ajude seu irmão a carregar a cruz. Divida o fardo. Vamos lá? Preciosa vida!

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